terça-feira, 3 de julho de 2018

Framboesas .

Estacionou o carro e acendeu um cigarro, deixou o rádio ligado tocando qualquer coisa, pois não assimilava a letra, apenas a melodia embalava sua alma que apreensiva esperava.
O trânsito nunca fora tão interessante e a espera parecia eterna.
Devagar o ônibus parou e as portas abriram, parou de respirar aguardando, então ela desceu com a mochila ao ombro e jogando o cabelo para trás, perdeu o fôlego ao contemplar. Ela andava em sua direção e as mãos suavam de tensão, um sorriso espelhado abriu a porta e se abraçaram... Um clima magmático surgiu e voltaram ao interior do carro.
Conversas rápidas surgem para esvanecer o nervosismo e seguem sem rumo explorando a cidade em busca de um café.
Sentam-se com o cardápio em mãos numa conveniência precária, as folhas caem pela mesa e entre o desespero contido escolhem seus respectivos desejum. Um café vienense, nome pomposo para um café doce com leite e canela e um macchiato para outro que espera que o desperte daquela letargia que adormece seus dedos.
Olhares fixam-se e examinam cada expressão, os ouvidos absorvem os timbres e palavras e no meio deste enlevo a xícara pende e seu líquido espalha-se pela mesa com uma queda que demora a ser percebida.
O peito se oprime com o deslize, mas a suavidade do sorriso dela tranquilizam seu pavor.
É fascinante observá-la, encantava-se por cada detalhe, sorvia avidamente os segundos compartilhados.
Era impossível acreditar que estavam diante daquela utópica realidade que tanto consumiu seus dias.
Partiram entre  sorrisos e expectativas...
Estenderam a colcha no gramado e sentaram-se preguiçosamente a observar a paisagem, logo vários grasnados fizeram-se audíveis e as araras azuis sobrevoaram aquele local transformando o dia mais belo e inacreditável.
Observou os pássaros e desejou ser livre para alçar voos pelo intangível, balançou a cabeça suavemente sem que ela percebesse para que tais pensamentos fugissem e aproveitasse aquele momento tão especial.
Ela falava o tempo inteiro e não aquietava-se, movimentava-se com graciosidade e a medida que sentia-se a vontade ficava mais bela e interessante.
Espontânea se aproximou para sentir o perfume que exalava suavemente do pescoço, puxou a mão para que fosse sentido seu coração que disparava pela tensão deste encontro.
Sorriu e sentiu a adrenalina percorrer o corpo, seria possível ser real? Ela ainda aludiu que poderia ser um sonho e despertar a qualquer momento...
Deram as mãos e permaneceram em silêncio por poucos segundos que não eram possíveis ser mensurados dado a profundidade dos olhares.
A eletricidade dos desejos era facilmente percebida pelo sorveteiro que passava com seu carrinho azul que sentou em árvore próxima para descansar do sol que começava a queimar a pele, embora o clima estivesse bem refrescante devido aos ventos que acariciavam docemente os cabelos negros que bailavam no ar enfeitiçando-a lentamente.
Navegou naqueles olhos escuros e como em um espelho denso conseguia ver sua forma refletida, não sabia interpretar tantos sinais... Respirava com dificuldade, estava com receio de tocá-la e desaparecer como uma miragem, não conseguia acreditar que após longas viagens, anos perambulando e perdendo-se em inúmeras pessoas, encontraria repouso naquele belo oásis que sempre fora tão intangível e agora estava a um toque de ser seu...
Apenas o som dos pássaros e ela sentou ao seu lado, podia sentir o cheiro da sua pele, parecia estar presa em um caleidoscópio, tantas cores e imagens, uma explosão de magia e aproximaram-se lentamente, olhava para cada detalhe daquele rosto perfeito, cada vez mais perto e o coração apressava-se intensamente, era possível ouvi-lo do outro lado da margem...
A respiração cessou e então seus lábios se tocaram, com os olhos fechados pode sentir a rotação da sua existência exasperada em um único instante, queria puxá-la para perto e senti-la tão intensamente quanto pulsava em cada partícula que vibrava com aquele encontro.
Abriu os olhos e em seu quarto a solidão a aguardava, apenas o gosto de framboesas daquele beijo inundava suas lembranças, sentiu o peso dos anos de todos amantes amargurados em suas mãos e encolheu-se, novamente havia se transportado para lembranças que mais pareciam fantasias.
Olhou o celular e nenhuma mensagem para amenizar... 
Por onde andaria? Estaria quebrada também?
Fragmentos daquele amor cortavam a pele que não sangrava, as lágrimas que secavam nos dutos tornaram-se as areias que afundavam a vontade de viver.
Levantou em busca de água para hidratar a dor e observou devagar o ônibus parar e as portas abrirem, parou de respirar aguardando, então ela desceu com a mochila ao ombro e jogando o cabelo para trás, perdeu o fôlego ao contemplar. Ela andava em sua direção e as mãos suavam de tensão, um sorriso espelhado abriu a porta e se abraçaram... 

sexta-feira, 1 de junho de 2018

Equilibrista .

O frescor da sua existência tocou meus poros, orvalhando as pétalas de minha rotina.
O desejo contido por paredes que quase toco, recuo.
Analogias estratégicas deleitam-se em jogos linguísticos, protegendo a imagem e o que há de seguro.
O perigo a espreita, todos os danos e conquistas em um suspiro, como uma equilibrista apoiando-se em seus instintos.
Mais um passo adiante e a corda balança, expira e hesita, retroceder é desequilibrar ou não, então rodopeia, lança-se ao ar e abre as mãos, embebedando-se deste caleidoscópio emocional e pousa com as pontas dos pés, na linha que a sustenta e como uma criança atrevida, saltita silenciosamente para não ser vista. 
Sorri e assusta-se.
Segue em sua trajetória, focada em seu eterno [des]equilíbrio. Respira e segura com suavidade sua vara, retorna a  caminhada ecoada por novas emoções. 
O que seus olhos deslumbraram não poderiam ser um farol a libertá-la das águas escuras e calmas que veleja suavemente como em um Ballet, apenas um Grand Pliè, um gracioso tom para embalar a valsa da vida.

quinta-feira, 10 de maio de 2018

Remoto Controle

Meu corpo estremece quando falo seu nome ou me refiro ao nosso passado. 
A visão perde o foco e as lágrimas afogam minha voz que morre nos lábios, lábios que curvam-se de saudades.
Anteontem sua partida estilhaçou meu espelho e os canários que ficaram remetem a segunda partida.
Partiram em pleno outono e inverno, inversamente.
E as madeiras daquela casa arqueadas pelo tempo e com diversas cores desbotadas silenciaram as lembranças, tudo parecia tão distante e estranho, como se nada pertencesse aquele local...
Minha paz revoou para fios delicados  que esticaram e balançam ao peso das dores que fazem repouso em minha luz. 
Anoitece meus sonhos e me recordo:
Daquela bicicleta vermelha e a linha do trem, corridas por entre sepulturas e o chapéu fazendo sombra ao sorriso de meu amado.
Da farda engomada com coturnos lustrados e a imponência de sua altura, tão grande... Era um gigante primeiro amor.
Anoitece meu despertar e me ausento, pois:
Os homens que amei pereceram e com eles meu pôr do sol sereno.

quinta-feira, 1 de outubro de 2015

Dead...

Hoje chorou pela ausência. 
Dor que não pode ser compartilhada ou explicada, é uma abstração tão forte que chega algumas vezes é incompreensível...
Há dias mais difíceis, hoje é um deles, gostaria de discutir que não gosto de me reunir em família para comer e que a reclusão em meu quarto me acalmava, hoje já não me acalma...
Não acho injusto, só estou me adaptando e tem sido complexo...
Ontem tentei a dança da minhoca e consegui, percebo o quanto somos parecidos e o quanto detesto reproduzir algumas coisas...
Aprendi a amar e a afastar contigo...
- "Deleta"
Sempre dizia. Naquele dia estávamos emburrados e nem nos abraçamos, só disse juízo... Devia ter ficado para o show, comprei seu ingresso e teimoso como uma mula não quis ficar, mesmo louco para assistir...
Se ao menos uma vez cedesse, mas seu orgulho era seu escudo... O meu também o é...
Por mais pesado que seja, cuidarei de tudo como sempre me pediu...
De alguma forma me educou para isso, ser forte e não demonstrar...
Hoje expresso, pois não há espaço para esconder tudo o que não consigo esconder...

Brindarei a noite ao meu amor, "agosto" de Deus... Setembro bizarro... Espero que neste Outubro floresça sua força em mim.

Congelada

Naquele dia percebeu que poderia ter chorado, com coração nas mãos e inquietude, verificava todos os meios de comunicação, até observou o céu buscando um sinal de fumaça
Fora ignorada e o que poderia fazer?

"Engolir a vida, sorrir sem vontade e cuidar de si..."

Sucumbe aos estilhaços e inicia a colagem, vai em frente e deixa as indagações, as memórias e os afetos...

Só quer desapegar...

sábado, 13 de junho de 2015

Plumas...

Vivo a passarinhar
de flores em flores
tentando saber, Sabiá.

Inflando o peito,asas planando...

Cantarola, Canário
"Bem-te-vendo" nas lembranças.

Fulgaz, pardalzinho
caçando felicidade, pequeno falcão.

livre águia
não contenta-se com migalhas, só as pombas.

Nasceu para voar rápido
social Bavette,
as vezes Lóris e sua reclusão.

Doce agressivo, caboclinho,
tão majestoso Cardela da Virgínia;
comunica-se Mainá e
ame como um Meiro.

Melancólico como Patativa e Sabiá Laranjeira.

Encanta-me Rouxinol de Pequim

Purpurina alada,Sairá-de-Lenço

Baila em sorrisos, Tangará-dançarino

valente Trinca ferro
ilumina-me como um Tarim

Esplêndido, sua calma e timidez encantam

Voou envolta da minha vida, Agapórnis,
tornou-me Arara Vermelha de Asa Verde,
um Azulão e Diamante de Gould
me aquecendo com seus olhos...

Voa livre, pois odiamos gaiolas
Espero seu sopro de vida
em cada piar trazido com o vento.

Aguardo-o para um ninho
mesmo que diferentes espécies
não entrelacem
Aguardo que seja meu João-de-Barro
e ser seu Pinguim Imperial,
desastrado, barulhento e presente.

Que as asas se encontrem
e as espécies que vivem em nós
sejam a riqueza natural
de um abraço.

Voe passarinho e retorne ao meu abrigo.


segunda-feira, 1 de junho de 2015

O garoto do pier

Ele ficou ali olhando,
o barco partiu no horizonte,
os remos incessantes
levando longe as esperanças.
O Sol deitava-se
nos lençóis marítimos
e o barquinho quase não se via.
O menino sentou encostando os pés na água,
cotovelos apoiados no joelho e as mãos no rosto,
olhava para baixo sem pensar em nada.
Avistou uma ostra
e mergulhou para pegá-la,
ao chegar perto era um ouriço
e ao espetar o dedo
adormeceu em profundo veneno
que lhe cegou...
Não mais esperava o barco.
Agora seu corpo
era uma âncora
em direção ao fundo
para segurar o barquinho...
Segurou-o até o musgo revesti-lo
e a escuridão e frio entorpeciam...
O veneno atingiu-lhe o coração
então, cansou de ser
e tornou-se submarino.
Submergindo das profundezas
em direção a luz...

E o barquinho?
Continuou à mercê das marés...

quarta-feira, 13 de maio de 2015

Dilaceradas...

Tenho olhos marejados pela incoerência...
Ando vacilante [atitudes ladinas desequilibram minhas certezas]
Abraço-me diante de tanta maldade... [talvez suas mágoas...]
Como ousas falar de amor?

Só semeastes feitiços para entristecer...
Coagulou meus sentimentos [inconformou-se]
Ao transformar suas palavras em lâminas
Tentastes prender minhas asas
Sem importar-se com as feridas...
Escrevo hoje à ti
Intencionada à desculpar-me
Se outrora lhe feri
Ao não sustentar esta relação.
Perdoe-me e liberta-me
Não permito mais seu ódio...
Sigas sem provocar
mais angústias;
menos luz;
dor. [para nós...]
Suspiraremos e
às lembranças sorriremos
De um amor revertido
em vôos incertos...

quarta-feira, 6 de maio de 2015

Labirinto .

Sonhos eternos [quiçá pesadelos...]
desertos sem fim
no peito que urge
nas imagens da sua luz

O epílogo daquele abraço
cheiro e sussurro
guiaram sentimentos
guardados na quadrela olvidada...

Busílis transformando meus axiomas
em fidedigno labirinto.
Como nortear este emaranhado [repleto de farpas]
quando o grito [pranto]
fez de minha garganta morada!

Com convicções [agora]
fragmentadas em questões dúbias:

O que esperar? [dele, de mim... de nós.]


Deglutino [tento]
a vida.
Estas incertezas consomem
meu humor e energia.

Filosofar as lógicas;
Inquerir os sentimentos [motivações];
Racionalizar o fascínio;
Compreender os meus medos...

Não tornaram minha busca [caminho]
mais fáceis...

Qualquer perspectiva é agressiva.

Os anseios serão engolidos
pelo tempo [ciclos]
Até que a vida
decifre nossos olhares.

quinta-feira, 23 de abril de 2015

Decepção .

De tanto amor [que dei]
meus olhos mergulharam em ti
Em tantos sorrisos
me perdi em sua luz [minha dor].

Daquele dia ensolarado
gramas tão verdes,
ventos suaves,
beleza sua estampada
na suavidade de um beijo.

Doçura infinita [corrompida em silêncios]
seus abraços acalmavam
toda fúria que abrigava
e a melodia de sua voz
tornaram esperanças possíveis.

Efêmeros momentos
onde escondes
aquele que quis me encontrar? [talvez não mais].

Esconde os sentimentos
Como algo sujo ou proibido
Não sou Julieta e nem és meu Romeu!

Encorajou-me ao precipício
de seus encantos ternos
para afastar-se em minha queda.
Onde os voos eram seguros
e agora só restam asas pequenas.

Tomada de medo;
seu silêncio denuncia a partida [subjetiva]
de uma garota vazia...

Daqueles olhos e beijos
não mais esquecerei...
Se refuga minha imagem
dignos não serás!

Não escondo-me sobre a sombra do luar.
Não permito este breu
que insiste em me subjugar.

Se amigos não compreendem [infâmia]
é melhor se afastar.
Não sou segredos
para calar.

Agradeço o afeto
condeno minha fraqueza.
Não contento-me [não mais]
com migalhas
que podes conceder...

Parto com pesar...
Não mais espero
algo que és impossível oferecer.

Utópica felicidade...
Não podemos dar
aquilo que não temos a ofertar [nem para si].

Esperanças vazias
de um amor [não tão] sereno.

segunda-feira, 20 de abril de 2015

Equilíbrio .

Este azul tão limpo
que qualquer pássaro
sonharia em voar
nestes belos olhos
que contemplo até perder o ar.

Neste azul tão intenso
são um convite
para mergulhar
e descobrir todos tesouros
por trás deste olhar.

Este azul tão doce
acalmaria todas confusões
delicado igual a um pássaro
olhos fortes como um leão.

Nestes lindos olhos
Encontrei tão belo sorriso
e este azul que me encanta
faz com que perca a rima;
o eixo e encha-me de vida.


Em tantos tons de azuis encontrei paz.

terça-feira, 7 de abril de 2015

Miragem .

Naquela manhã o pequeno poeta resolveu se aquecer ao sol, sentou em uma pedra e esticou as mãos, mexendo os dedos rapidamente em pequenas ondulações.
Buscava inspiração nas árvores, nas flores, na grama ou em qualquer segundo que suspirasse próximo aos seus devaneios. Aqueceu suas mãos e caminhou pelas árvores procurando amor. 
Espiou um casal de borboletas, três coelhos brincalhões correndo, uma tartaruga sonolenta e nada disso enchia seus instintos. Colheu algumas amoras e fechou os olhos, colocando uma a uma em sua boca e esperando-as derreter, sentir o sabor explodindo em sua boca era quase mágico. 
Ouviu uma risada e ao abrir-se deparou-se com uma menina de vestido rosa com rendinhas brancas, ela tinha os braços para trás e dava uns saltos perto de uma rosa. Não sabia se era a voz, as cores ou o jeito que o sol iluminava seu cabelo pelas árvores, só tinha certeza que ali estava o que procurava. 
Não conteve-se e declamou: 

- "Estou com o coração a piar
como pode tão bela flor
causar tanto alvoroço
só com um simples olhar?" 

A menina virou para ele com uma interrogação e com prazer em ouvi-lo. Chegou mais perto e disse: 

- Vamos lá, menino!
Se és tão bom em rimar,
Faça um poema para que possa lhe amar! 

O poeta empolgou-se, saltou do chão e falou: 

- Doce, menina
minha vida era tão sombria
Encontrar-te foi mais que milagre
és deleite dos meus sonhos...

E com os ânimos ditosos, o menino procurou-lhe os lábios e a bela garota dissolveu ao tocar.Pobre poeta, caíra no encanto das princesas, desejava mais do que podia e voltava a si dizendo: 

- Queria escrever sobre ti, menina,
Amei mais do que deveria,
Ó vida, dei meu amor sem cautela
sucumbo agora à espera. 

Fechou o semblante e percorreu o caminho para casa, nesta noite não haveriam mais canções.

domingo, 29 de março de 2015

Locomotiva .

Andava com uma mala e o coração nas mãos. Um semblante triste naquele rosto singular envolto de cabelos cacheados louros delicadamente ocultos em seu chapéu.
Traços delicados e olhar forte contrastavam com toda a obra. Moça esguia e miúda, não mais que o tamanho de um colibri.
Com suas mãos tão pequeninas e suaves, carregava o peso de uma vida por aquela plataforma na forma de um bilhete.
Uma vida que não era para ser vivida.
O relógio sempre consultado. O tempo é um espaço imensurável à aqueles que têm pressa.
Não há volta para os que partem, os avisos soltos pelos papeis que voam pelas plataformas, os sorrisos calados em fina boca e as lágrimas evaporadas no meio de tanta confusão.
Os ferros batiam uma nova melodia para o seu futuro, rápidos e fortes como as batidas que reverberavam em sua cabeça.
Olhos baixos, sapatos impecáveis e aquela sensação sufocante. Toca o chapéu cobrindo parte de seus olhos metálicos e entre um suspiro engole o desejo de voltar-se de costas à espera de um grito de esperança.
Sempre envolta de coletes, salvando sua pele contra as inúmeras investidas do destino, não importaria quanto a bagagem supera o peso consideravelmente permitido, seus braços eram fortes para mantê-las em pé.
Embora aquele dia em especial estava tão fraca que quase perdeu seu equilíbrio quando suas tralhas despedaçavam-se no chão como um quebra-cabeça colorido atrelados às suas viagens.
Abaixou rapidamente para colocá-los nos bolsos e levá-los consigo para onde fosse, até que pudessem enterrá-los ou entregá-los ao mar. Seu casaco não comportava tantas peças e suas mãos trêmulas não conseguiam organizá-las para otimizar o espaço.
Um lenço branco acompanhado de uma mão gentil procura auxiliá-la em seus enigmas e surpresa não contesta e não compreende.
Ele sorri francamente desconsertando seus compassos e ela sorri, Limpam suas vestes e caminham para um café, ele também está de passagem, trocam olhares e inquietações, os laços estreitam e os trens chegam em suas devidas paradas para novas partidas.
Ambos com bilhetes em mãos dadas, rotas diferentes
Desenlaçam seus dedos e dão passos oscilantes, caminham de costas e ao tocarem o terceiro degrau correm para trocar suas passagens para o próximo horário enquanto não sabem para onde aventurar-se.
Bagagens e bolsos vazios foram despachados, entre algumas palavras e borboletas eternizam a plataforma até as próximas estações.

segunda-feira, 23 de março de 2015

Fly.

Eu voaria todos os dias mais alto. Voaria de sorriso em sorriso como uma abelha a polinizar minha vida. Voaria leve como um dente de leão nas minhas lembranças.
Não sou dotada de asas, mas não estou destinada a cárceres, pertenço ao vento e ao fogo, quero a liberdade para mudar as formas, os rumos e abrasar ou não todos os minutos dos meus dias.
Posso voar pelos encantos de "pessoas pássaros", mas não consigo conviver com gaiolas castrando os versos e oxidando meus sonhos.
Vamos voar e sentir cada célula pulsar alegria!

quarta-feira, 18 de março de 2015

Ouro de tolo.

versos de Vênus
vazios como as nuvens
consomem as palavras
que prenderam-se nos pensamentos

no seio da vida
escorre o fel das paixões
cegos percorrem as correntes
dos espelhos inversos

as ostras envoltas de musgo
produzem caleidoscópios valorizados pelos egos
a ganancia retira a beleza das gotas de suor
exaure a transparência das brisas.

poetas mortos não enobrecem o passado
melodias desaparecidas encantam os pássaros
a escassez de humanidade nas pedras[frutificam os homens
surdos ao apelo, avançam  como deuses.

só és impossível (,) o primeiro passo
as cavernas cardíacas repletas de estalagmites
construindo deformações artísticas criadas por lágrimas
o calar noturno transporta os odes que não mais surpreendem