quarta-feira, 1 de outubro de 2014

Crescendo .



Muitas vezes nos vemos em posição de impotência e somos levados a sacrificar alguns sonhos e a entender que, por mais poderosos que sejamos, existem circunstâncias em que simplesmente nada ou pouco podemos fazer. Necessidade de cultivar a espera e entender que a impotência é, antes de tudo, uma lição de humildade. Tudo passa e você certamente se abrirá a tempos melhores no futuro, sentindo que seus planos (no momento paralisados) fluirão a contento.

Enclausurada ;

Incapaz de se manter neste mundo, ela viaja entre as canções e filmes, suas alucinações áudio-visuais tornavam-se cada vez mais forte. Ela lutava para se manter em sua vida, mas, ao iniciar as melodias perdia-se em outras realidades. 
O pranto se acumulava cada vez que saia do controle. Suas lutas constantes eram demasiadas exaustivas, as vezes estes devaneios se alternavam rapidamente e o foco para voltar a si sumia.
Quando sua mente retornava a verdade tornava-se tão frustrante, em seus mundos a felicidade era exalada a cada momento, embora sua visão permanecesse neste plano e nos outros, simultaneamente. A agitação tomava conta de seu corpo e de seus movimentos, andava freneticamente para encontrar-se mas, ao caminhar perdia-se.
Ela ao final de cada viagem gostaria de ser a última e ao mesmo tempo ansiava pela próxima. 
Infelicidade se arrastava a face quando permanecia e por um segundo ela desejava ter asas para voar de encontro as belas paisagens e existências que vivencia em sua quimera.
Pobre onírica, as mais belas cores e perfumes, estão paralelamente em outra dimensão, inalcançável e como uma miragem resplandecem aos seus olhos sedentos pela paragem, estende as mãos e ao tocá-las a ilusão se desfaz. 
Alma prisioneira em um corpo comum, sem poderes e sem glória, um dia sua âncora sucumbira a sua delicadeza etérea e poderá retornar as tantas moradas que seu espírito almeja.

quarta-feira, 30 de abril de 2014

Impasse

Bem-te-vi pelos campos
Bem-te-vi pelos sonhos
sorri ao bem te ver
voou ao bem me olhar.

Bem me viu sem me ver
Bem- te-vi sem chorar
partiu sem bem me querer
parei ao bem te encontrar.


terça-feira, 15 de abril de 2014

Máscara

Baixou os olhos para o fundo do copo e viu sua bota pelo líquido amarelado, seu sorriso e olhos brilhavam com a mentira que contava para si.
Chegou a casa imensamente elétrica, quase convulsionando de tanta energia e quanto mais sorria menos convencia. Suas pupilas dilatadas e cabelo desgrenhado exalavam todo o seu descontrole.
Pediu um cigarro, acendeu, desvairava-se pelos cantos e sentou-se. Sorria em demasia, mexia-se em demasia, afirmava-se com exagero típico de quem precisa se convencer de suas "verdades".
Concordei com todas suas afirmações sorrindo, verifiquei pupilas e questionei sobre ilícitos. Negou.
Talvez estivesse entorpecida pelos próprios sentimentos que são tão alucinógenos quanto alguns cogumelos.
A doçura do seu sorriso e olhos vidrados tranformaram-se dando-lhe traços felinos e afiados. Compreendi que a sua eletricidade era um prelúdio ao ataque. Excitada como uma Naja vibrava a cabeça para acelerar o movimento do seu "esguicho de fel", assim cobrindo minha incapacidade de prever e articular uma defesa.
Suas palavras atingiram certeiramente o que poderia pressupor minhas capacidades neurais em reagir, paralisando e interrompendo a comunicação entre meus nervos e músculos. O sorriso ainda pairava debilmente no rosto e apenas os olhos poderiam expressar quaisquer resquícios deste golpe.
Levantou-se e refugiou-se em seu abrigo pseudo-abstrato fechando a porta mais uma vez.
Imóvel vibrava ódio e sentia cada célula recebendo meu oxigênio e trocando por carbono, seu ataque paralisava a capacidade expressiva, embora avessamente sentia-me lucida.
 
Respirava com plenitude, aspirando e expirando maiores quantidades de ar e silenciei. Fechei os olhos por breves segundos e iniciei um processo reverso, deixando as energias exalarem pelos poros e retrocedi seu veneno. Serenei. 

Sorri novamente e compreendi a quão ferida está, a quão dolorida e frágil encontra-se. As investidas incessantes ao longo deste convívio, deixaram que meu corpo crie reações diferentes do que seria esperado por você.

Enquanto busca regenerar-se em sua essência, transforma suas intenções em frente ao espelho treinando debilmente aquela expressão de desespero e necessidade de amparo que lhe serve de isca para tolos como eu.

quinta-feira, 27 de setembro de 2012

Pressa...

Silêncio, eu tenho pressa, as suas orações atrapalham os meus pensamentos e não alcançam lugar algum... O seu sorriso engana os meus olhos mas nunca a minha razão... É preferível a morte agressiva ao cinismo do seu afago, preferível o escarro na face ao seu abraço ladino...


Silêncio, eu tenho pressa, tenho pressa para ser feliz onde seja livre e as cores sejam bem fortes para sentir o vento e paz...

quinta-feira, 21 de junho de 2012

O que te movimenta?


O que movimenta é a raiva. Algumas atitudes são independentes de efeitos de álcool e drogas, mas, a maioria das atitudes tem algum tipo de raiva, mesmo que não admita-se.

O que movimenta é o orgulho. Algumas atitudes matam outros sentimentos para deixar a superfície lustrada a puro orgulho. Inverter-se o amor ao próximo pelo amor a si.

O que movimenta é a luxúria. Algumas atitudes desinibem o recalque e transforma as princesas em devassas. Elas fazem expressões doces a maior parte do tempo, aparentam a inexpressão constante para acalmar os vulcões que erupem-se com estímulos inebriantes em 8000 feixes de fibras nervosas.

O que movimenta é o amor. Algumas atitudes revelam total desprendimento do egocentrismo latente para uma mistura de sentimentos que elevam o nível de seretonina.

O que movimenta é a amizade. Algumas atitudes tornam-se inexplicáveis o envolvimento entre duas pessoas sem nenhum vinculo afetivo / sexual. Talvez, o mais sublime sentimento e com certeza o mais raro.

O que movimenta é o medo. Algumas atitudes apresentam tanto medo que as pessoas sucumbem a personalidade para que tal situação ou perda não aconteça. O medo realça vários sentimentos divergentes, desde a melancolia a agressão descontrolada.

O que te movimenta é a nostalgia. Algumas atitudes foram tão benéficas em algum momento que as pessoas preferem devanear em lembranças a permitirem-se viver novas sensações.

O que te movimenta é o remorso. Algumas atitudes realizadas por outros movimentos consomem a consciência de algumas pessoas, definhando a vitalidade de alguma forma.

O que te movimenta é a confusão. Algumas atitudes são tão confusas e agradáveis para algumas pessoas. Estas atitudes demonstram fraqueza, medo, aflição ou qualquer outro sentimento submergido na dúvida e no prazer de não definir-se em algum aspecto.

O que te movimenta é a auto-piedade. Algumas atitudes são baseadas na compaixão a si mesmo. Há alguma coisa de belo nesta auto-flagelação, próxima a apatia, piedade ou fanatismo em sofrer pelo prazer do sadismo. Incompreensível, entretanto, deve haver alguma beleza que ainda não observamos, apenas aqueles que choram e frustram-se em sua dor percebem.

O que te movimenta é a inveja. Algumas atitudes acentuam os defeitos alheios para ocultar uma comparação desfavorável entre pessoas ou objetos. A inveja esconde uma vontade frustrada de possuir atributos ou virtudes de um outro, talvez por uma incapacidade do mesmo de alcançar o ápice desejado, seja isso por limitação física, intelectual ou emocional.

O que te movimenta é a inspiração. Algumas atitudes surgem de estímulos criativos, resultando em detalhes ricamente autênticos e repletos de enredos mágicos.

O que te movimenta? Somos movimentados por uma efusão gigantesca durante dias, horas, minutos, anos, meses, segundos. O que te movimenta é o ponto principal de cada sorriso, lágrima, sonho, rancor, qualquer sentimento, emoção, pensamento, atitude...

O que te movimenta?

Vento .







No final dos ventos há sempre um suspiro, um estalado beijo jogado para fora do carro, um sorriso torto, frações de lembranças, piscar de olhos, bicos, assovios, palmas, gritos, lágrimas, desejos...
O vento percorre todos e carrega consigo um fragmento de cada, quando o encontramos ou quando ele nos encontra, rodopia, abraça, envolve e solta-se, as vezes acaricia, as vezes bate, ausenta-se para depois voltar com força...
Ah! Este vento é um menino levado, um rapaz apaixonado, um homem moderado e um idoso sábio.
O idoso que abraçou-me quando fraquejei, trouxe uma pétala para que lembrasse-me que haviam cores quando estava tudo escuro, apagou a vela quando dormia exausta em um sofá lendo cartas...
O homem que calou minhas canções, secou meu rosto, empoeirou o retrato, apagou o riso, cessou o grito...
Aquele rapaz que trazia-me o seu perfume numa ponte, os seus olhos num campo e o seu amor em uma flor...
Pequeno menino travesso que surpreendia-me com rajadas que estremeciam, provocava carregando meus papéis e brincando com os meus cabelos...
Vento, és o meu único amigo, companheiro, traga-me todas as manhãs o homem, as tardes o menino, as noites o rapaz e durantes as madrugadas, venha como este senhor que acalenta e fortifica.
Quando lhe encontrar darei a melhor essência que houver e leve-a você sabe para quem.
Quando encontrar-me abrace, faça-me rir e deixe um resquício do amor que com o vento se foi.


quarta-feira, 6 de junho de 2012

Helena.

Ele sussurrou:

- Helena, por favor...

Ela sem olhar para trás partiu naquela rua ladrilhada de pedriscos, sua bolsa verde em uma mão, sobretudo aberto e cabelos soltos, castanhos claros, cacheados e longos. Aquele beco ficara maior e da onde estava cabisbaixo sentia o perfume em suas mãos.
Chorou por tempo demasiado e exausto retornou ao lar, aquele lugar que fora abrigo de tantos risos era só um pesado silêncio. Eduardo, não conformava-se com a partida, não aceitava o vazio que fora tomando espaço em sua vida.
Passava os dias vegetando, acordava e estendia a mão para cama vazia, não dera-se ao trabalho de trocar os lençóis, deixou seu loft intocado para quando ela voltasse... Ia todas as tardes à praça com esperança que lhe reencontraria... E quando lhe reencontra-se abriria os braços, o sorriso e o coração, lançaria-a ao ar e rodaria, diria que estava tudo bem, compreendia e poxa! Como sentira sua falta, pegaria em sua mão, iriam caminhar pelas ruas, diria bom dia a todos que passassem, sorririam um para o outro com cumplicidade companheira, tomariam café e pediriam um pedaço de bolo de cenoura, neste dia tudo seria especial, o sol brilharia por mais tempo, as gramas estariam mais verdes e o sapateiro da esquina lhe acenaria tocando o chapéu percebendo a felicidade não contida...
O dia arrastava-se lento, tardes maçantes, senhoras com suas sacolas de tricô e compras perambulando, crianças correndo e mais um por-do-sol anunciava=se, ela não retornara ainda... Mãos nos bolsos, olhos aos pés e voltava para casa...
As noites, eternas noites, torturantes pelo tic-tac de um relógio comprado em um brechó na primeira viagem que fizeram ao Chile, a neurose consumindo sua sanidade, verificando celular, e-mail, rede sociais e caixa postal, o irritante som do não tocar de campainha e a mazela de suas lembranças... Dormia largado aos cantos, raramente ia para cama, não acostumava-se a deitar sozinho, dormia onde estava, normalmente, sofá ou tapete... Quaisquer barulhos da rua lhe despertavam com o medo dela bater à porta e não escutar, então, partir para sempre...

As horas tornaram-se dias, dias viraram semanas e as semanas... meses!

Eduardo não sabia mais o que fazer e as desculpas para si mesmo haviam acabado, os amigos lhe procuraram no começo mas, depois de um tempo desistiram, sabiam que um dia ele perceberia que era em vão... Helena, não voltaria.

Marcos estava com Helena há muito tempo, a bem da verdade, fora o motivo de sua partida, entretanto, Eduardo acredita em outros motivos, até que um dia em sua fissura por redes sociais leu uma frase de Helena e desligou o computador.
Passou os dias da mesma forma como há muito vinha fazendo, afinal, tornara-se um ritual. Final da tarde, voltava com sua tristeza de sempre, quando esbarrou em uma senhora e derrubou-lhe as sacolas, as laranjas rolaram pelo meio fio e sem graça recolheu tudo, pedindo desculpas insistentemente. Ergueu-lhe os olhos, sorriu como quem perdeu a pratica e ela lhe abriu franco sorriso, agradeceu e convidou para um café, hesitou mas, acabou aceitando. Não conversava com ninguém há tanto tempo, que mal faria? Caminharam mais algumas quadras, Olga era seu nome, tinha 76 anos, senhora viuva, negra, calça caqui e blusa branca, cabelos brancos e uma bondade que acolhia a quem a olhava.
Entraram e novamente aquele silêncio, não constrangedor, confortável... Olga lhe contou a vida, mostrou as fotos de netos, filhos e marido, amor que fora-se há 30 anos de um subto infarto, enquanto falava seus olhos brilhavam e Eduardo não pode conter o choro que vinha contendo, suas lágrimas cessaram na primeira semana... Como uma mãe que acolhe aos filhos em tempos difíceis colocou sua mão sobre as suas e esperou o silêncio retornar, então, Eduardo desculpou-se novamente e pela primeira vez admitia os fatos em voz alta e percebia o fel da verdade...

Helena, estava apaixonada por Marcos, não lhe amava, talvez, nunca o tenha e por isso partiu, não foram os erros, não foram as brigas e muito menos o gosto dele por blues e dela por Erudito, percebeu que o sentimento que nutria por ela fora grande o suficiente para esperar, ceder e sonhar... Mas, sonhava por uma ilusão e ilusões não concretizavam-se, pelo menos não nesta vida.

Olga esperou terminar e lhe disse:

- Eduardo, o único sentimento que importa é o reciproco, o restante será sempre ilusão...

Ele pensou, agradeceu e prometeu-lhe novas visitas, sentia-se triste, cansado e frustrado mas, leve... Colocou as mãos nos bolsos, ergueu a cabeça e deixou o vento lhe tocar, confiante de um novo começo.

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sábado, 10 de março de 2012

Competição

Sentados em um elevador quebrado, discutem arduamente e exaustos desabafam:
- Não posso mudar quem eu sou...
- Nem eu...
- E o que faremos agora?
- Não estou com vontade de falar...
- Okay, nem eu...
Ela deita a cabeça em seu ombro e suspira...

Quando o amor não é suficiente para sua vida e ao mesmo tempo indispensável... Como lidar com tantas diferenças e necessidades?
Quando cegamos de tantas dores e rebeldias e a madruga assola com lembranças...
Inevitavelmente, segue-se em frente, incompletos, entretanto, adiante... Conscientes que racionalmente é o correto... Emocionalmente fragmentados...
Expondo convicções escritas e verbais de suficiência e indiferença... Intrisecamente vedados aos sentimentos...

Desapego e afeto, realmente, a quem estamos tentando enganar, aos outros, a pessoa que está apenas ocupando um espaço para nossa fuga ou para aqueles que deixamos para trás por divergências nada cedíveis?

...

segunda-feira, 20 de fevereiro de 2012

Último ato...

Ela estava sentada no topo de uma montanha, observando o horizonte, pensando nas pessoas, problemas, lembranças que rodearam sua vida, quando sentiu um vento soprando em seus ouvidos e disse sem pensar...
- Vento, diga que eu o amo...
Depois lançou-se com os braços abertos, olhos fechados e coração pesado em direção nenhuma, apenas caindo como suas lágrimas caiam antes e molhavam o chão...

quarta-feira, 28 de dezembro de 2011

Palavras...

Sempre dizem que vão voltar e não retornam, dizem que vão lhe amar e não amam, que lhe desejam mais que qualquer outra mas, não tocam, palavras tão acariciadas por um sentimento de necessidade e a perda sobrepuja todas as esperanças com um toque tão amargo...
" - Sempre quero beijar você e Pare! não tenho vontade... ". São frases que tornam sua vida desejável ou deplorável...
Quando a solidão lhe acalenta e imagina-se braços, suave respiração no pescoço com sensação de proteção, quando visualiza-se aquele sorriso que lhe faz prender o ar, quando seus olhos bailam ao vislumbrar todo o conjunto e sua mente fica inalterada por tal imagem... 
Quando tudo transforma-se em apenas um grito no escuro, o frio da indiferença, o azedo da perda e a inexatidão de sons...
Quando as coisas acontecem ficamos a mercê de dilemas e pensamentos obsessivos, tornamo-nos escravos das mais belas cores que jamais respiramos...

quarta-feira, 21 de dezembro de 2011

Fragilidade x Fortaleza

Sempre se preocuparam com suas lágrimas. Acreditavam que quando molhava a face, era quando se tornava mais frágil... Não podiam imaginar que quando os olhos secaram é que foi o momento mais delicado. Ela foi crescendo, misturando uma massa de pranto recolhido e, revoltada recalcada, ficou do tamanho do seu ódio. E de lá de cima, todos eram muito pequenos...
Quando a lamúria secou, seus lábios enrijeceram, seus olhos petrificaram e os punhos cerraram. Qualquer dor para desfocar a dor, qualquer luta para vingar-se de suas lutas, qualquer pecado para mortificar suas qualidades...

sábado, 1 de outubro de 2011

Inadequado...


Perdida entre desencontros, tantas verdades que eu já nem sei mais contar, meus sonhos se extinguiram e minha vida se esvai pelos dedos.
Quantas vezes serão necessárias bater na mesma porta, até que ela se abra e contenha a escolha certa?
Dentre todos aqueles que se foram, seguro com as unhas cada fragmento que posso tocar para que também não parta, deveras inevitável, o pranto se escoa e o tempo anula-se.
A despedida é iniciada e negada, as partículas se desprendem e gravitam em outro espaço
O riso fácil e jovial torna-se dissonante com a lamúria instalada naqueles olhos enevoados de devaneios.
A esperança instala-se em todos os poros e busca consolo em cada articulação para eximir a culpa. Atenua-se com delírios de uma garota retornando às lembranças saborosas.

sexta-feira, 1 de julho de 2011

Liberdade

E de tanta tristeza cessaram os batimentos.


Havia um belo pássaro azul que lamentava todos os dias, o fato de ser sido-lhe imposto uma gaiola.
Todos os dias acordava, olhava pela grade e pensava:
- Quero minha liberdade!
Mostrava-se muitas vezes agressivo, melancólico e até mesmo ausente de si, quando era o momento de ser tratado.
Cantava uma melodia triste, não suportava ver outros pássaros fazendo o que sentiam vontade enquanto ele estava fadado a limitações.
Certo dia, antes de dormir, cansado da vida que levava, bolou um plano e adormeceu com um sorriso no bico.
No outro dia, quando foram tratá-lo, conseguiu escapar e voou livremente pela janela, sua euforia era tanta, que não sabia nem para onde ir, voou adiante até suas asas cansarem, pousou e apesar de exausto, mal podia conter-se por estar finalmente livre. Entretanto, o tempo foi passando ao longo do dia, sentiu fome, sentiu frio, voou sem rumo para vários lugares buscando a felicidade tão sonhada...
Voou entre gansos, periquitos, maritacas, corvos, corujas e até mesmo com morcegos, procurando aquela sensação que devaneava no balanço de sua gaiola.
Após algum tempo, o pássaro tornou-se novamente melancólico, agressivo e até mesmo ausente de si, quando uma gaivota voava por perto e resolveu conversar um pouco:
- E aí marujo, o que manda?
- Eu não sei, estou só aqui parado pensando... - Disse o pássaro azul sem desviar os olhos do horizonte.
A gaivota retrucou:
- Pensando em que?
- Eu não sei dizer, estou procurando...
Novamente a gaivota falou:
- Procurando o que?
O Pássaro azul deu um grande suspiro, contou sua história para a Gaivota, que apenas balançava a cabeça e o bico para cima e para baixo. Quando terminou, ficaram em silencio alguns minutos, até que a Gaivota falasse:
- Marujo, a liberdade está dentro de você, há pássaros livres em gaiolas com seus humanos e pássaros em cativeiro quando em liberdade. A liberdade está em seu coração. A pergunta que deve responder é... Aonde meu coração está?
Terminou a frase e levantou voou seguindo seu percurso.
O Pássaro azul permaneceu no mesmo lugar durante muito tempo, procurando resposta para a pergunta da Gaivota. Começou a buscar dentro de suas lembranças aonde estava seu coração... Entre breves lágrimas e sorrisos, percebeu que antes de ver outros pássaros "livres" era feliz em sua gaiola, cantava alegremente todos os dias, acariciava a mão de sua dona todas as manhãs e havia desvalorizado todo o amor e lar que tinha, por uma ilusão. Afinal, concluíra que para cada pássaro há uma liberdade relativa e que a realidade do outro poderá nos deixar infeliz.
Levantou voou para voltar para casa, para sua gaiola, seu ninho e sua dona, voou adiante até suas asas cansarem, pousou e apesar de exausto, mal podia conter-se por estar finalmente na janela de sua casa.
Respirou fundo para cantar a mais linda das canções que jamais havia cantado quando ouviu outra música, procurou em volta entretanto, não via nenhum pássaro voando por perto ou pousado em uma árvore, ouviu novamente e olhou pela janela...
Não podia suportar, em sua gaiola havia outro pássaro, um pássaro amarelo, cantando alegre em seu balanço.
O Pássaro azul permaneceu lá olhando a noite inteira, o outro pássaro com a sua dona, alimentando-se e dormindo na sua gaiola...
Então chorou e de tanta tristeza cessaram os batimentos...

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Deleite...

De todos os amores, você despertou os meus sonhos mais doces, meus desejos mais quentes e meus sorrisos mais sinceros...